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Valuation em tempos de juros altos: como a taxa Selic muda suas premissas e o preço real do seu negócio

A empresa não mudou. O produto não mudou. O time não mudou. Mas o valuation caiu 40% e a culpa foi do Copom.

Essa frase soa estranha pra quem nunca entrou no detalhe técnico de como uma avaliação de empresa é construída. Mas pra quem já fez um valuation usando fluxo de caixa descontado, ela faz todo sentido. E é exatamente esse entendimento que separa um empresário que negocia bem do que sai da mesa sem entender por que o comprador ofereceu tão pouco.

Valuation com Selic alta é um tema urgente no Brasil de hoje. Com a taxa básica de juros oscilando acima de dois dígitos nos últimos anos e o Copom mantendo um ciclo restritivo para conter a inflação, qualquer negócio que esteja em processo de venda, captação ou reorganização societária precisa entender o que muda na conta e por quê.

O que a Selic tem a ver com o valor da sua empresa

Pra começar pelo básico: o valor de uma empresa, quando calculado pelo método DCF (Fluxo de Caixa Descontado), é o resultado de trazer todos os lucros futuros esperados para o valor de hoje. Esse processo de “trazer para o presente” usa uma taxa de desconto. Quanto maior essa taxa, menor o valor presente dos lucros futuros. Simples assim.

E de onde vem essa taxa de desconto? Em grande parte, ela deriva da Selic.

A taxa básica de juros define o custo do dinheiro na economia. Quando a Selic sobe, investir em renda fixa se torna mais atraente e menos arriscado. Resultado: quem vai investir numa empresa passa a exigir um retorno maior para compensar o risco que está assumindo. Esse retorno exigido maior eleva a taxa de desconto do DCF. E uma taxa de desconto mais alta reduz o valor presente dos fluxos futuros projetados.

Na prática: os números da empresa não mudaram, mas o valor calculado caiu. E isso não é uma distorção do modelo. É o modelo funcionando exatamente como deveria.

Como a Selic entra no WACC e o que isso significa no número final

O WACC, ou Custo Médio Ponderado de Capital, é a taxa que a maioria dos analistas usa como taxa de desconto no DCF. Ele combina o custo do capital próprio com o custo da dívida da empresa, ponderados pela participação de cada um na estrutura de financiamento.

O custo do capital próprio é calculado normalmente pelo modelo CAPM, que leva em conta a taxa livre de risco (onde entra a Selic ou os juros dos títulos do governo), o beta do setor e o prêmio de risco de mercado. Quando a Selic sobe, a taxa livre de risco sobe junto. Quando a taxa livre de risco sobe, o custo do capital próprio aumenta. E quando o custo do capital próprio aumenta, o WACC sobe.

Para ter uma ideia do impacto numérico disso: uma empresa com fluxo de caixa projetado de R$ 2 milhões ao ano por dez anos, avaliada com um WACC de 12%, teria um valor presente de aproximadamente R$ 11,3 milhões. Se o WACC subir para 18%, esse mesmo fluxo, sem mudar nenhuma linha operacional, passa a valer cerca de R$ 8,5 milhões. Uma queda de quase 25% no valor da empresa, causada exclusivamente pela mudança no custo de capital.

É por isso que empresas avaliadas no auge do ciclo de juros baixos de 2020 e 2021, especialmente startups e negócios de crescimento acelerado, aparecem hoje com valuation significativamente menor, mesmo tendo crescido operacionalmente no período. O ambiente de juros mudou e o modelo reflete isso.

Por que startups sofrem mais e empresas maduras ganham competitividade

Essa dinâmica tem um efeito distribuído de forma muito desigual entre tipos de empresa.

Startups e negócios em fase de crescimento acelerado têm uma característica que as torna extremamente sensíveis à taxa de desconto: a maior parte do valor delas está concentrada no futuro distante. Quando você projeta um fluxo de caixa que só começa a ficar expressivo daqui a seis ou oito anos, uma taxa de desconto mais alta penaliza esses anos futuros de forma desproporcional. O desconto aplicado sobre um fluxo de 2030 com WACC de 18% é muito mais pesado do que com WACC de 10%. Por isso startups, que vendiam por 15x receita em 2021, hoje dificilmente passam de 4x ou 5x no mesmo contexto operacional.

Empresas maduras, com geração de caixa consistente nos próximos dois a três anos, sofrem menos. O valor delas está mais concentrado no curto prazo, que é menos sensível à variação da taxa de desconto. Além disso, empresas maduras tendem a ter ativos tangíveis relevantes que entram no valuation como colchão de proteção independentemente do DCF.

Outro efeito que poucos discutem: com juros altos, o comprador também fica mais seletivo. O custo de financiar uma aquisição sobe. Isso reduz o número de compradores interessados no mercado, o que por si só pressiona os preços pra baixo. É oferta e demanda funcionando dentro do mercado de M&A.

Múltiplo ou DCF: qual usar quando os juros estão altos

Essa é uma das perguntas mais frequentes em processos de avaliação em ciclos de juro alto, e a resposta depende de qual perspectiva você está defendendo.

O método de múltiplos, como EBITDA multiplicado por um fator setorial, tem a vantagem de capturar o comportamento do mercado em tempo real. Se as empresas do seu setor estão sendo negociadas por 5x EBITDA neste momento, esse número já embute implicitamente o efeito dos juros altos na percepção de valor do mercado. O comprador que usa múltiplos de mercado está, de certa forma, comprando já com o desconto dos juros aplicado.

O DCF, por outro lado, permite que você argumente sobre o valor intrínseco da empresa independentemente das distorções momentâneas do mercado. Se você acredita que a Selic vai cair nos próximos dois anos, o que reduziria o WACC e elevaria o valor do negócio, o DCF com cenários de sensibilidade é a ferramenta que permite demonstrar esse potencial de valorização ao comprador.

Na prática, o que os melhores advisors fazem é usar os dois métodos em paralelo e apresentar a faixa de valor resultante. A diferença entre o valor de múltiplo e o valor do DCF com WACC mais baixo se torna, em muitos casos, o espaço de negociação entre vendedor e comprador.

O que o empresário deve fazer agora

Se você está pensando em vender, captar investimento ou reorganizar a estrutura societária da sua empresa, o momento dos juros altos traz três implicações práticas que você precisa ter na mesa.

A primeira é não negociar sem um valuation atualizado. Um valuation feito em 2022, quando a Selic estava em outro patamar, não serve como referência para uma negociação em 2025 ou 2026. As premissas mudaram e o número que você tem na cabeça pode estar desatualizado para mais ou para menos.

A segunda é entender o WACC que o comprador está usando. Qualquer proposta séria de compra vem com um modelo financeiro por trás. Saber qual taxa de desconto o comprador aplicou explica muito sobre por que o número chegou onde chegou. E essa informação abre margem para contrapropostas fundamentadas, não apenas emocionais.

A terceira é avaliar se o momento é o certo para fechar negócio. Em alguns casos, estruturar um earn-out, onde parte do valor é paga ao longo do tempo conforme metas de desempenho, pode ser uma forma de preservar valor para o vendedor sem que o comprador precise aceitar um preço cheio num ambiente de juros adverso. Nem todo processo precisa ser fechado agora.

Valuation com Selic alta é técnico, mas não é inacessível

Muitas empresas entram em processos de venda sem entender o impacto dos juros no cálculo final. Resultado: surpresas na mesa de negociação, propostas que parecem baixas sem explicação e acordos que ficam no meio do caminho por falta de alinhamento técnico.

Entender o que move o número da sua empresa, incluindo variáveis macroeconômicas como a taxa Selic, é o que separa uma negociação preparada de uma negociação improvisada.

A Smart Value trabalha com metodologias consolidadas de mercado, dados de referência reais e consultores que sabem traduzir essa complexidade em linguagem clara pra você e pra quem está do outro lado da mesa.

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